domingo, 4 de março de 2012



Começo.

Magoei os pés no chão onde nasci.
Cilícios de raivosa hostilidade
Abriram golpes na fragilidade
De criatura
Que não pude deixar de ser um dia.
Com lágrimas de pasmo e de amargura
Paguei à terra o pão que lhe pedia.
Comprei a consciência de que sou
Homem de trocas com a natureza.
Fera sentada à mesa
Depois de ter escoado o coração
Na incerteza
De comer o suor que semeou,
Varejou,
E, dobrada de lírica tristeza,
Carregou.


Miguel Torga


sábado, 3 de março de 2012




Ela Canta

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anônima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enrêdo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões p'ra cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente 'stá pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!

Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

Fernando Pessoa

quinta-feira, 1 de março de 2012


Uns Versos Quaisquer
Vive o momento com saudade dele 
      Já ao vivê-lo... 
Barcas vazias, sempre nos impele 
      Como a um solto cabelo 
Um vento para longe, e não sabemos, 
Ao viver, que sentimos ou queremos...
Demo-nos pois a consciência disto 
      Como de um lago 
Posto em paisagens de torpor mortiço 
      Sob um céu ermo e vago, 
E que a nossa consciência de nós seja 
Uma cousa que nada já deseja...
Assim idênticos à hora toda 
      Em seu pleno sabor, 
Nossa vida será nossa ante-boda: 
      Não nós, mas uma cor, 
Um perfume, um meneio de arvoredo, 
E a morte não virá nem tarde ou cedo...
Porque o que importa é que já nada importe... 
      Nada nos vale 
Que se debruce sobre nós a Sorte, 
      Ou, ténue e longe, cale 
Seus gestos... Tudo é o mesmo... Eis o momento... 
Sejamo-lo... Pra quê o pensamento?...

Fernando Pessoa

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012



Quando ela Passa

Quando eu me sento à janela
P'los vidros que a neve embaça
Vejo a doce imagem dela
Quando passa... passa ... passa...


Lançou-me a mágoa seu véu: -
Menos um ser neste mundo
E mais um anjo no céu.


Quando eu me sento à janela,
P'los vidros que a neve embaça
Julgo ver a imagem dela
Que já não passa... não passa...

Fernando Pessoa

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012


Aquela cativa


Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que para meus olhos
Fosse mais formosa.

Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas,
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.

Uma graça viva,
Que neles lhe mora,
Para ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.

Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela enfim descansa
Toda a minha pena.
Esta é a minha cativa
Que me tem cativo,
E, pois nela vivo,
É força que viva.


Luis Vaz de Camões

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012



Uma Noite no Cairo

Noite no Egito. O céu claro e profundo
Fulgura. A rua é triste. A Lua Cheia
Está sinistra, e, sobre a paz do mundo,
A alma dos Faraós anda e vagueia.


Os mastins negros vão ladrando à lua...
O Cairo é de uma formosura arcaica.
No ângulo mais recôndito da rua
Passa cantando uma mulher hebraica.


O Egito é sempre assim quando anoitece!
Às vezes das pirâmides o quêdo
E atro perfil, exposto ao luar, parece
Uma sombria interjeição de medo!


Como um contraste aqueles míseres
Num quiosque em festa a alegre turba grita
E dentro dançam homens e mulheres
Numa aglomeração cosmopolita.


Tonto do vinho, um saltimbanco da Asia
Convulso e rôto, no apogeu da fúria,
Executando evoluções de razzia
Solta um brado epiléptico de injúria!


Em derredor duma ampla mesa preta
- Última nota do conúbio infando -
Vêem-se dez jogadores de roleta
Fumando, discutindo, conversando.


Resplandece a celeste superfície
Dorme soturna a natureza sabia...
Em baixo, na mais próxima planície,
Pasta um cavalo esplêndido da Arábia.


Vaga no espaço um silfo solitário.
Trôam kinnors! Depois tudo é tranquilo...
Apenas, como um velho stradivario,
Soluça toda a noite a água do Nilo!

Augusto dos Anjos

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012




Bola sete

Bola sete não botava movimento.
Era incansável em não sair do lugar. 
Igual o caranguejo de Buson que foi encontrado
de manhã debaixo do mesmo céu de ontem.
Pra compensar tinha laia de poeta.
Dava qualidades de flor a uma rã.
Dava as pessoas qualidade de água.
Isto ele fazia com letras, não precisava se mover.
Onde estava era ele, a manhã e suas garças;
era ele, o acaso e suas cores, era ele, o riacho e suas margens; 
era ele, o horizonte e duas nuvens. Por aí.
Passarinhos brincavam nas paisagens de sua janela.
O mundo era perto. 
Bastava estender as mãos que chegava no fim
do mundo. 
Bola Sete não botava movimento.
Era um sujeito desverbado que nem uma oração
desverbada.

Manoel de Barros